Machado de Assis
O AUTOR DE SI MESMO
GUIMARÃES chama-se ele; ela Cristina. Tinham um filho, a quem puseram
o nome de Abílio. Cansados de lhe dar maus tratos, pegaram do filho,
meteram-no dentro de um caixão e foram pô-lo em uma estrebaria,
onde o pequeno passou três dias, sem comer nem beber, coberto de chagas,
recebendo bicadas de galinhas, até que veio a falecer. Contava dous
anos de idade. Sucedeu este caso em Porto Alegre, segundo as últimas
folhas, que acrescentam terem sido os pais recolhidos à cadeia, e aberto
o inquérito. A dor do pequeno foi naturalmente grandíssima,
não só pela tenra idade, como porque bicada de galinha dói
muito, mormente em cima de chaga aberta. Tudo isto, com fome e sede, fê-lo
passar "um mau quarto de hora", como dizem os franceses, mas um
quarto de hora de três dias; donde se pode inferir que o organismo do
menino Abílio era apropriado aos tormentos. Se chegasse a homem, dava
um lutador resistente; mas a prova de que não iria até lá,
é que morreu.
Se não fosse Schopenhauer, é provável que eu não
tratasse deste caso diminuto, simples notícia de gazetilha. Mas há
na principal das obras daquele filósofo um capítulo destinado
a explicar as causas transcendentes do amor. Ele, que não era modesto,
afirma que esse estudo é uma pérola. A explicação
é que dous namorados não se escolhem um ao outro pelas causas
individuais que presumem, mas porque um ser, que só pode vir deles,
os incita e conjuga. Apliquemos esta teoria ao caso Abílio.
Um dia Guimarães viu Cristina, e Cristina viu Guimarães. Os
olhos de um e de outro trocaram-se, e o coração de ambos bateu
fortemente. Guimarães achou em Cristina uma graça particular,
alguma cousa que nenhuma outra mulher possuía. Cristina gostou da figura
de Guimarães, reconhecendo que entre todos os homens era um homem único.
E cada um disse consigo: "Bom consorte para mim!" O resto foi o
namoro mais ou menos longo, o pedido da mão da moça, as formalidades,
as bodas. Se havia sol ou chuva, quando eles casaram, não sei; mas,
suponho um céu escuro e o vento minuano, valeram tanto como a mais
fresca das brisas debaixo de um céu claro. Bem-aventurados os que se
possuem, porque eles possuirão a terra. Assim pensaram eles. Mas o
autor de tudo, segundo o nosso filósofo, foi unicamente Abílio.
O menino, que ainda não era menino nem nada, disse consigo, logo que
os dous se encontraram: "Guimarães há de ser meu pai e
Cristina há de ser minha mãe; é preciso que nasça
deles, levando comigo, em resumo, as qualidades que estão separadas
nos dous". As entrevistas dos namorados era o futuro Abílio que
as preparava; se eram difíceis, ele dava coragem a Guimarães
para afrontar os riscos, e paciência a Cristina para esperá-lo.
As cartas eram ditadas por ele. Abílio andava no pensamento de ambos,
mascarado com o rosto dela, quando estava no dele, e com o dele, se era no
pensamento dela. E fazia isso a um tempo, como pessoa que, não tendo
figura própria, não sendo mais que uma idéia específica,
podia viver inteiro em dous lugares, sem quebra da identidade nem da integridade.
Falava nos sonhos de Cristina com a voz de Guimarães, e nos de Guimarães
com a de Cristina, e ambos sentiam que nenhuma outra voz era tão doce,
tão pura, tão deleitosa.
Enfim, nasceu Abílio. Não contam as folhas cousa alguma acerca
dos primeiros dias daquele menino. Podiam ser bons. Há dias bons debaixo
do sol. Também não se sabe quando começaram os castigos,
— refiro-me aos castigos duros, os que abriram as primeiras chagas,
não as pancadinhas do princípio, visto que todas as cousas têm
um princípio, e muito provável é que nos primeiros tempos
da criança os golpes fossem aplicados diminutivamente. Se chorava,
é porque a lágrima é o suco da dor. Demais, é
livre — mais livre ainda nas crianças que mamam, que nos homens
que não mamam.
Chagado, encaixotado, foi levado à estrebaria, onde, por um desconcerto
das cousas humanas, em vez de cavalos, havia galinhas. Sabeis já que
estas, mariscando, comiam ou arrancavam somente pedaços da carne de
Abílio. Aí, nesses três dias, podemos imaginar que Abílio,
inclinado aos monólogos, recitasse este outro de sua invenção:
"Quem mandou aqueles dous casarem-se para me trazerem a este mundo? Estava
tão sossegado, tão fora dele, que bem podiam fazer-me o pequeno
favor de me deixarem lá. Que mal lhes fiz eu antes, se não era
nascido? Que banquete é este em que o convidado é que é
comido?".
Nesse ponto do discurso é que o filósofo de Dantzig, se fosse
vivo e estivesse em Porto Alegre, bradaria com a sua velha irritação:
"Cala a boca, Abílio. Tu não só ignoras a verdade,
mas até esqueces o passado. Que culpa podem ter essas duas criaturas
humanas, se tu mesmo é que os ligaste? Não te lembras que, quando
Guimarães passava e olhava para Cristina, e Cristina para ele cada
um cuidando de si, tu é que os fizeste atraídos e namorados?
Foi a tua ânsia de vir a este mundo que os ligou sob a forma de paixão
e de escolha pessoal. Eles cuidaram fazer o seu negócio, e fizeram
o teu. Se te saiu mal o negócio, a culpa não é deles,
mas tua, e não sei se tua somente ... Sobre isto, é melhor que
aproveites o tempo que ainda te sobrar das galinhas, para ler o trecho da
minha grande obra, em que explico as cousas pelo miúdo. É uma
pérola. Está no tomo II, livro IV, capítulo XLIV... Anda,
Abílio, a verdade é verdade — ainda à hora da morte.
Não creias nos professores de filosofia, nem na peste de Hegel ...
E Abílio, entre duas bicadas:
— Será verdade o que dizes, Artur; mas é também
verdade que, antes de cá vir, não me doía nada, e se
eu soubesse que teria de acabar assim, às mãos dos meus próprios
autores, não teria vindo cá. Ui! Ai